terça-feira, 23 de setembro de 2008

Conterrâneos de Van Gogh no Nordeste Brasileiro?




Caros leitores, antes de tudo gostaria de apresentar uma revisão histórica, talvez não seja uma, mas não tenho lido muitos artigos claros sobre um fato que sempre tem encafifado a cabeça de muitos brasileiros.





Não são poucos os Nordestinos, principalmente os da porção setentrional do Brasil que ao declamarem sua genealogia, apontam para uma distante origem "holandesa" entre seus antepassados.
Será que os conterrâneos de Van Gogh, resolveram ficar e aproveitar as belezas naturais dessa nossa terrinha?



Apesar de temos variadas opiniões sobre um mesmo assunto, grandes nomes acadêmicos em nosso país tem mostrado suas opiniões embasadas em registros do período holandês no Brasil.Temos como um grande exemplo o mestre Gilberto Freyre que já dizia que os casamentos entre "holandeses" e brasileiras não teriam sido poucos.


Esse talvez se apoiasse no histórico escrito pelo Frei Manuel Calado do Salvador (1584-1654), que viveu durante o período batavo em Pernambuco, e que através de sua obra, O Valoroso Lucideno, que contabilizava uma cifra de 20 casamentos oficiais na aristocracia açucareira.
Um outro dado importante mais pouco trabalhado, foi a permanência de soldados da WIC, após o cumprimento de suas obrigações na Nova Holanda.


Por sua vez esses soldados eram mercenários contratados aos montes pela Companhia das Índias Ocidentais, para servirem na proteção dos interesses da mesma em sua expansão pela a África e América, sendo esses mercenários de variadas origens, Ingleses, Holandeses, Franceses, Alemães, húngaros, poloneses...






Espero que agora esteja explicado o motivo de ter posto sempre "holandeses" entre Aspas.






Com o vencimento do acordo, entre a WIC e os Mercenários contratados, eram lhes prometido além de um soldo, o retorno do mesmo a Europa. Mas como mostram alguns autores do período, muitos resolveram fazer da Nova Holanda sua nova morada:


"Dos holandeses uns servem a Companhia das Índias Ocidentais, vivem outros por conta própria e não estão adstritos a prestar a ninguém serviços temporários..........................."



"Circunstâncias foi uma felicidade para a W.I.C. que muitos oficiais e soldados do exército em campanha no Brasil, aos quais fora concedida "baixa" após 4 anos de serviço militar, resolvessem ficar na Nova Holanda e dedicar-se em sua maior parte à cultura da terra"








(O Domínio colonial hollandez no Brasil -WÄTJEN, Hermann J"Estes ou




"chegaram nesta condição ao Brasil ou a obtiveram ali, depois de haverem servido. Vivem todos na condição de colonos, quer tenham dado baixa da milícia ou conseguido sua dispensa de outras funções,................."

(História dos feitos praticados no Brasil, durante oito anos sob o governo do ilustríssimo Conde João Maurício de Nassau -Gaspar Barleus)

Quanto ao número de soldados que aportaram por esses lados, as cifras variavam conforme o período. No início da invasão, chegaram à 3000 soldados, mas com a medida que o domínio ia se consolidando esse número foi reduzindo, pois a WIC não via motivos para os luso-brasileiros se rebelarem, já que Portugal na época mantinha-se sob jugo espanhol (União Ibérica).



Essa talvez tenha sido uma das falhas que acarretaram na derrota da WIC frente aos Insurretos luso-brasileiros em 1654.



Voltando a questão cosmopolita da Nova Holanda, escritores do período apontam para um variado número de procedências dos soldados contratos pela WIC. Assim também houve o respeito no quesito religioso, onde a WIC se preocupou em manter não só em enviar obreiros de variadas origens, mas também permitiu a organização de igrejas reformadas, onde os cultos eram ministrados em língua Inglesa, Francesa e Holandesa, pois esses eram os grupos que representavam a maioria dos colonos e mercenários na Nova Holanda.





A Nova Holanda refletia o universo cosmopolita em que vivia os Países Baixos nessa época.



"No Recife, na Cidade Mauricio e nos fortes circunvizinhos, abrangendo quatrocentos protestantes holandeses, franceses e ingleses, havia três ministros que pregavam em língua holandesa, Nikolaus Vogelius, Petrus Ongena e Petrus Gribius............."

O ministro francês era Joachim Soler e o inglês era Samuel Batchelaer.

Então agora os caros leitores podem está se perguntando:

Mas todos os "holandeses" não foram expulsos após a Insurreição Pernambucana?

Essa é parte da história que precisa ser revisada.
Vejamos porque:

Os soldados não tinham nacionalidade holandesa em sua maioria, então diante das privações comum a uma guerra, viam-se no dilema, que quase sempre acabava os levando a deserção para salvar suas vidas.

Entre os desertores havia muitos franceses como nos mostra o Diário de um soldado da Companhia das Índias Ocidentais de Ambrosius Richshoffer
.

"Os desertores são na sua maioria franceses, de sorte que os desta nacionalidade estão sendo muito suspeitos e odiados entre nós"

Agora o leitor pode está se fazendo uma outra pergunta:

Mas se não foram poucos os que permaneceram quais seria as explicações para a não sobrevivência da onomástica centro-européia nos Nordestinos?

Uma explicação plausível foi dada por Gilberto Freyre ao afirma que a não permanência dos sobrenomes estariam ligadas a questões de sobrevivência em um mundo dominado pela cultura lusitana, onde qualquer lembrança de uma suposta origem "herética" (protestante, Judaica ou Moura) ditaria os rumos que essas pessoas teriam em uma sociedade de valores católicos.

Os meios encontrados para tais fins foram diversos, como por exemplo, o aportuguesamento dos sobrenomes, ou a adoção das geração vindouras dessas uniões, entre holandeses e Luso-brasileiras, do sobrenome da mãe português em detrimento ao do pai herege, pois como se sabe, os acunhas paternos e maternos eram alternados no batismo dos filhos, prática comum na época.

Embora uma exceção tenha sido a geração de Gaspar Van der Ley, que ao casar com a luso-brasileira D. Maria de Mello, fez questão de passar seu sobrenome aos descendentes que orgulhosamente exibem o exótico sobrenome Wanderley até nossos dias.
Entre outros "holandeses" que se casaram com Luso-brasileiras, podemos encontrar:







(¹) Charles de Toulon casado com Dona Ana Paes, que após o falecimento do primeiro veio a se casar com Gijsbert de Whit.

Não podemos deixar de mencionar Abraham Tapper, Johan Heck, Joris Gastman, Jan Wijnants de Haarlen,(²) Albert Gerritsz Wedda, que também se casaram com luso-brasileiras e deixaram geração.
Desses mencionados acima Abraham Tapper, Johan Heck, retornaram a Holanda, Gerritsz Wedda permaneceu aportuguesando seu nome para Geraldo Beda, como descreve Borges da Fonseca.

Outros casos também citados por fontes variadas são a do Escocê Thomaz Colens, que por professar a fé católica obteve do Mestre-de -campo Francisco Barreto uma licença para permanecer em Pernambuco e o de Francisco de Brae, filho de Jacques Van Brae, nativo de Rotterdam, que se transferiu para a Bahia, onde deixou descendência.

E para finalizar nossos exemplos o capitão "Alemão", Wensel Smit, que teve seu nome aportuguesado para Bento Farias, passando para o lado Luso-brasileiro junto com Dirck van Hoogstraten, auxiliando assim os Insurretos na campanha de expulsão da WIC desse rincão brasileiro.
A esses nomes podemos juntar a de tantos outros mercenários e colonos que a história ainda há de revelar nos próximos anos ou que se perderam para sempre, mas que deixaram sua semente na construção dessas bandas do Brasil.

Gostaria de finalizar citando o esplendoroso trabalho do professor Sérgio Danilo Pena, titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Faculdade de Medicina da UFMG - O Retrato Molécular do povo Brasileiro, que nos fornece os dados da presença do Haplótipo H2 comum na Europa Central e também entre os Portugueses, mas que se apresentam no Brasil em índices mais elevados que em Portugal.
(³)Sendo que na Região Sul pode ser explicado pela presença dos imigrantes alemães, e no Nordeste pelos 24 anos de presença da WIC............
A Esses que ficaram se juntaram, Portugueses, judeus, mouros, Espanhóis, Italianos, Africanos e Americolas, constituindo o brasileiro de nossos dias.


(¹)Tempo dos Flamengos - José Antônio Gonçalves de Mello.(²) Nobiliarquia Pernambucana – Borges da Fonseca(³) Retrato Molecular do Povo Brasileiro - Sérgio Danilo Pena – UFMG.

2 comentários:

Vinícius disse...

Destaco em seu artigo dois pontos fundamentais em toda a história, amigo. Inicialmente, todo o preconceito e arrogância português que era superior muitas vezes até aos direitos humanos na época. E, no fim de tudo, a bela miscigenação adquirida pelo povo brasileiro com o decorrer de nossa colonização, nos tornando uma nação de todas as raças, todas as cores, todos os sangues!

Alfredo Oliveira disse...

Gostei muito de seu texto. Seria necessário um estudo de campo para saber o que ficou desses batavos em terras nordestinas. As tradições judaicas já estão razoavelmente estudadas.
Fugindo deste tema deixo como relato a presença de "ingleses" na foz do rio Paraiba que tem a cidade de Campos como sua principal cidade. na década de 1970 estive em Gargaú e vi que muitas crianças tinham cabelos alourados e eventualmente olhos claros além da miscigenação entre indios e negros. Conta a tradição que um barco inglês afundou nestas paragens e sua tripulação ficou por ali mesmo. Foi o máximo que concegui